Por Dr. Mauro Kioshi Tenorio Tojo
Médico de Família e Comunidade
CRM 108317/SP
Neste texto, falaremos sobre a bioimpedância. Ela é um exame que avalia nossa composição corporal de uma forma mais precisa e específica do que uma simples pesagem em balança. A bioimpedância é muito utilizada para avaliar se a quantidade e volume de gordura e músculos de um indivíduo está adequada para a idade, sexo e estilo de vida, ajudando assim no planejamento de dietas e treinos. Ela é realizada com o uso de balanças especiais, que possuem placas que avaliam a quantidade de músculo, gordura e outros parâmetros por meio de uma corrente elétrica, como explicamos a seguir.
1. O que é bioimpedância?
1. A bioimpedância é um método indolor e não invasivo, que tem como finalidade medir alguns parâmetros de nossa composição corporal. Ela avalia a quantidade de água, massa muscular, gordura corporal e gordura visceral, por meio de uma corrente elétrica fraca, que tem maior resistência a passar por tecido adiposo (gordura) que massa magra. Com base na diferença de impedâncias, que é a capacidade de cada tecido do corpo de impor resistência, o equipamento calcula o quanto cada tipo de massa representa na composição corporal.
O exame é feito utilizando um equipamento específico, como uma balança com eletrodos que são por onde passa a corrente elétrica que irá aferir nossa composição corporal.
Há tipos diferentes de equipamentos que mensuram a composição corporal. No caso das balanças, que são as mais comuns em uso doméstico, temos os tipos bipolar e tetrapolar. Na bipolar, os pontos de contato com o aparelho são apenas as mãos ou os pés. Já a tetrapolar tem mais sensores, e a medição é feita com os pés e as mãos, na qual a pessoa segura uma haste ou barra com as mãos, aumentando o número de pontos de contato. A aferição pelo método tetrapolar é considerada mais precisa [1,2].
2. Para que serve?
1. A bioimpedância tem como finalidade avaliar a composição corporal, principalmente a quantidade de massa muscular e de massa de gordura do organismo. Trata-se de um método mais detalhado do que o método de Índice de Massa Corpórea, que utiliza apenas peso e altura para avaliar se a pessoa está dentro de seu peso ideal.
Ela é importante no acompanhamento da evolução de regimes de nutrição, tanto para perda de peso quanto para ganho de massa magra.
Acompanhando as mudanças na bioimpedância, fica mais fácil determinar se um plano alimentar e de exercícios está sendo eficaz para uma pessoa. Isso facilita determinar o melhor plano para combinar alimentação equilibrada, exercícios regulares e demais hábitos saudáveis para alcançar os resultados esperados.
Logo, a bioimpedância pode ser útil tanto para pessoas que sofrem de obesidade quanto para quem deseja ganhar massa muscular.
3. Quais as recomendações para fazer o exame?
Há algumas recomendações para o exame, que, sendo seguidas, melhoram a confiabilidade dos resultados, como:
– Ingerir 2 litros de água no dia anterior à aferição;
– Não realizar atividade física 12 horas antes;
– Fazer jejum de água e alimentos 4 horas antes;
– Retirar utensílios metálicos do corpo, como relógios, pulseiras e outros acessórios;
– Não passar cremes nos pés e nas mãos.
– É muito importante respeitar as condições acima. As medidas da bioimpedância, especialmente em equipamentos mais precisos, podem variar com a mudanças corpóreas que ocorrem naturalmente ao longo do dia, principalmente os níveis de hidratação corporal e alimentação. Por isso, para acompanhar a evolução nas medidas de forma consistente, é fundamental realizar a bioimpedância sempre nas mesmas condições [7]. Devido a isso, é recomendado fazer a aferição logo quando a pessoa acorda, pois com as variações ao longo do dia, é difícil replicarmos as mesmas condições corporais. Medindo logo ao acordar, conseguimos assegurar que a variação seja a mínima possível na sequência de medidas.
4. Há contraindicações?
A bioimpedância tem algumas contraindicações relativas, o que significa que pode ser prejudicial para algumas pessoas, porém não é um consenso absoluto [4]. As contraindicações para a aplicação da bioimpedância são duas: pessoas gestantes e portadores de marca-passo cardíaco.
5. Como interpretar os dados da bioimpedância?
A bioimpedância fornece vários resultados:
1. Peso e IMC: Além do seu peso em quilos, também é exibido o IMC, ou Índice de Massa Corpórea. O IMC é um valor resultante de um cálculo, no qual se divide o peso pelo quadrado da altura. O IMC considerado saudável é aquele situado entre 18,5 e 24,9.
Classificação do IMC:
- IMC <18,5kg/m2 – baixo peso.
- IMC >18,5 até 24,9kg/m2 – eutrofia (peso adequado)
- IMC ≥25 até 29,9kg/m2 – sobrepeso.
- IMC >30,0kg/m2 até 34,9kg/m2 – obesidade grau 1.
- IMC >35kg/m2 até 39,9kg/m2 – obesidade grau 2.
- IMC > 40kg/m2 – obesidade grau 3.
2. Massa de Gordura Corporal, ou Percentual de Gordura Corporal: indica a massa, em quilos, ou porcentagem de gordura em relação ao peso total do corpo. É um indicador crucial da saúde geral e do risco de desenvolver doenças relacionadas à obesidade. Quanto maior a porcentagem de gordura corporal de uma pessoa, maior a probabilidade de ela desenvolver doenças cardíacas, hipertensão, diabetes tipo 2, cálculos biliares, problemas respiratórios como apneia do sono e até alguns tipos de câncer.
O Percentual de Gordura Corporal é considerado aceitável de 18 a 24% para homens, e 25 a 31% para mulheres, com algumas variações pela idade [5].
3. Massa Magra: indica a quantidade de músculo e água no organismo. Os aparelhos mais recentes já mostram a massa magra separadamente, diferenciando entre água e músculo. Aumentar a massa muscular pode melhorar o metabolismo, a força e a resistência.
4. Taxa de Metabolismo Basal (TMB): estima a quantidade de energia (em calorias) que o corpo precisa para manter suas funções básicas em repouso. Este valor é importante para planejar dietas e regimes de exercícios, pois ele mostra seu gasto calórico durante o seu dia. Isso auxilia a determinar quantas calorias você deve consumir diariamente dependendo de seu objetivo. Por exemplo, para perda de peso, geralmente se orienta a consumir uma quantidade de calorias abaixo de sua taxa de metabolismo basal, considerando também o gasto na atividade física.
5. Gordura Visceral: a gordura visceral é a que está armazenada ao redor de nossos órgãos. Ela está localizada mais profundamente que a gordura subcutânea, aquela que podemos “pegar”. Um índice alto de gordura visceral também está associado a risco aumentado de algumas condições de saúde, incluindo doenças cardíacas, diabetes tipo 2, hipertensão e certos tipos de câncer.
O resultado da gordura visceral na bioimpedância é uma pontuação derivada de um algoritmo de cálculo. Ela é expressa da seguinte forma:
- Saudável: 1 a 12;
- Prejudicial: 13 a 59.
7. Hidratação: A hidratação mostra a quantidade de água corporal, valor importante para saber se o organismo está bem hidratado, ou seja, se a pessoa está ingerindo água em quantidade adequada. Os valores de referência são:
- Mulher: de 45% a 60%;
- Homem: de 50% a 65%.
8. Idade Metabólica: A idade metabólica é um número que resulta na comparação da sua taxa metabólica basal (TMB) com a taxa metabólica basal média de outros indivíduos da mesma idade cronológica. Portanto é um valor comparativo, de você com a média de pessoas da sua idade, ou seja, é possível reduzi-la com perda de peso e gordura corporal, ganho de massa muscular e outros hábitos saudáveis.
Use a idade metabólica como um parâmetro do quanto você precisa aprimorar seus hábitos saudáveis para atingir um valor compatível com sua idade cronológica.
As balanças tetrapolares são as mais indicadas para resultados mais precisos, e inclusive elas podem produzir resultados bem próximos do exame padrão ouro de avaliação de composição corporal, que é a densitometria por absorção de raios-X de dupla energia (DEXA)[6].
Concluindo, a bioimpedância pode ser um aliado muito útil na avaliação corporal e no planejamento de dietas e programas de exercício, além de ajudar nas orientações do profissional de saúde sobre adoção, manutenção e eficácia de hábitos saudáveis.
- DITTMAR, Manuela. Comparison of bipolar and tetrapolar impedance techniques for assessing fat mass. American Journal of Human Biology: The Official Journal of the Human Biology Association, v. 16, n. 5, p. 593-597, 2004.
- BOTH, Diego Rodrigo; MATHEUS, Silvana Corrêa; BEHENCK, Mauri Schwanck. Acuracidade de diferentes tipos de impedância bioelétrica na estimativa da gordura corporal de homens. Nutr. clin. diet. hosp, v. 35, n. 2, p. 8-15, 2015.
- LEBIEDOWSKA, Agata; HARTMAN-PETRYCKA, Magdalena; BŁOŃSKA-FAJFROWSKA, Barbara. How reliable is BMI? Bioimpedance analysis of body composition in underweight, normal weight, overweight, and obese women. Irish Journal of Medical Science (1971-), v. 190, p. 993-998, 2021.
- WASYLUK, Weronika et al. Limits of body composition assessment by bioelectrical impedance analysis (BIA). Journal of Education, Health and Sport, v. 9, n. 8, p. 35-44, 2019.
- Demystifying Body Fat Percentages: A Healthy Range Explained – https://www.acefitness.org/about-ace/press-room/in-the-news/8540/demystifying-body-fat-percentages-a-healthy-range-explained-medriva/
- KHAN, Soofia et al. Relative accuracy of bioelectrical impedance analysis for assessing body composition in children with severe obesity. Journal of pediatric gastroenterology and nutrition, v. 70, n. 6, p. e129-e135, 2020.
- GONZÁLEZ-CORREA, C. H.; CAICEDO-ERASO, J. C. Bioelectrical impedance analysis (BIA): a proposal for standardization of the classical method in adults. In: Journal of Physics: Conference Series. IOP Publishing, 2012. p. 012018.